Autismo: a disputa de narrativas e as vozes que ainda não alcançamos | Opinião | Rita Louzeiro

Autora do texto: Rita Louzeiro é ativista pela neurodiversidade e membro da ABRAÇA.

Estamos em 2018, é crescente o número de autistas se expressando e sendo ouvidos no Brasil. Hoje já é visto como absurdo eventos sobre autismo em que nenhum autista fala sobre o tema ou mesmo teses inteiras em que apenas as falas de especialistas são citadas. O “nada sobre nós sem nós”, lema dos movimentos de pessoas com deficiência, tem se mostrado cada vez mais presente. Temos adentrado espaços de construção e definição de políticas públicas, questionado aqueles espaços em que o modelo médico ainda impera, marcado presença na mídia de massa. Temos inclusive opinado sobre como essa mídia fala sobre nós, nos representa e mostra o autismo. Nossas vozes tem sido ouvidas. O ativismo tem se mostrado como um espaço potente de transformação social.

Podemos dizer que nossas vozes começaram a ganhar força em um tom mais político, de interferência real no coletivo, a partir de 2015 e estamos em uma curva ascendente nesse sentido. O Encontro Brasileiro de Autistas (EBA/2016) serviu como uma espécie de acelerador desse processo. Alcançamos a ONU com Fernanda Santana denunciando a violência à qual estamos sujeitos, principalmente aqueles entre nós que não tem acesso a meios que possibilitem se comunicarem de forma ampla e efetiva, pela atuação de mercados pautados no modelo médico com o uso de charlatanismos vários. Denunciamos constantemente esses abusos em textos, falas, participação em eventos e reuniões com governos e sociedade civil.

Há uma forte disputa de narrativas. Ainda disputamos espaços com discursos de cura, de correção, pautados no paradigma médico, com forte aderência de muitas famílias. Esses discursos tem como alvo principal autistas não oralizados, sobre os quais recai fortemente a ideia do autismo como tragédia. Nossos discursos lançam luz sobre como esses autistas são tratados atualmente, sobre como eles deveriam ser tratados e sobre seus potenciais e direitos. Não falamos por eles, não temos a capacidade nem o direito de substituir suas vozes, mas podemos, com nossas falas e ações, fazer com que eles tenham acesso a comunicação alternativa, tecnologias assistivas e outros meios que lhes permitam serem ouvidos, terem vida autônoma e possibilidade de escolha sobre suas vidas.

O ano é 2018, ainda não temos autistas de grau 3 sendo ouvidos no Brasil como acontece em outros lugares em que esses autistas tem acesso a comunicação alternativa. Mas estamos chamando a atenção de todos para essa necessidade e possibilidade. Em alguns anos teremos sim acesso a essas vozes tão importantes e necessárias à luta política pela inclusão de pessoas autistas no Brasil. E podemos ter certeza de que, quando essas vozes puderem se expressar amplamente, elas serão realmente ouvidas e consideradas porque estamos neste exato momento abrindo espaços para que isso seja possível.

AVISO: Este artigo representa a opinião pessoal do autor/a e é de sua única e exclusiva responsabilidade. Os posicionamentos da ABRAÇA são tomados coletivamente e postados na categoria ‘MANIFESTOS’.

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