Autistar é verbo | Opinião | Adriana Torres

Adriana Torres é formada em administração com ênfase em marketing e trabalhou cerca de vinte anos nas áreas comercial e de comunicação. É ativista pelos direitos humanos há mais de dez anos, mãe de um garoto autista e vem descobrindo, aos poucos, suas próprias características autistas. Integrante da ABRAÇA, é também membro do grupo Autismo em Evidências e administradora da página Comunicando Direito no facebook.

Estamos em junho, mês de festa junina, ou seja, vai ter muita canjica, quentão, pé de moleque, pamonha, arroz doce, paçoca… Não em minha casa, porque detesto. Veja bem, adoro festa junina, mas pela festa, pelas bandeirinhas, a alegria das pessoas, não pela comida. Minha mãe chamava isso de chatice, mas após o diagnóstico de autismo do meu filho (que é ainda muito mais seletivo para comer do que eu já fui um dia), descobri o transtorno do processamento sensorial e a seletividade alimentar, tão característica de muitos autistas, e vi que a minha “chatice” tinha outro nome.

Ser autista não é um problema, sabe? Ser rotulada(o) de chata, fresca, mal educada, manhosa, imbecil, retardada, entre outros, pode ser um problema e tanto na vida de alguém.

Por isso eu sempre repito: diagnósticos não rotulam, norteiam. Graças ao diagnóstico do meu filhote e aos estudos acerca da condição, ele fez (e faz) diversas atividades de integração sensorial, pois comer pode ser algo muito mais complexo do que simplesmente gostar ou não gostar de determinado alimento. Meu filho não recusa a maioria dos alimentos por ser “chato”, porque isso não é uma escolha dele, não é comportamental, é neuronal.

O próximo dia 18 de junho é dia do orgulho autista. Não é um dia sobre neurotípicos (e se você é mãe/pai de autista e é neurotípico, esse dia NÃO é sobre você), é sobre ser autista e reconhecer que a diversidade é uma virtude da humanidade, e que ter uma condição diferente não faz de você alguém melhor ou pior que outro alguém. É sobre a capacidade de resistir e, assim, insistir em existir, apesar da psicofobia reinante.

Por muitas décadas, profissionais e parentes tentaram (e ainda tentam) acabar com o autismo. Desde o  uso de terapias comportamentais desrespeitosas e humilhantes (como foi, por muito tempo, a terapia ABA) até o uso de “tratamentos alternativos” que podem até levar o indivíduo à morte (o famigerado protocolo MMS, as quelações, entre outros).

Repito, o autismo não é um problema. O autista não está doente e não precisa ser curado, precisa ser respeitado e ter acesso a serviços de apoio e intervenções que o ajudem a viver em um mundo que não foi preparado para recebê-lo: um mundo de neurotípicos.

Os principais problemas que os autistas enfrentam estão justamente em serem obrigados a se adaptarem a esse mundo caótico, preconceituoso e intolerante. Autistas não falantes precisam ter acesso a diferentes ferramentas para se comunicarem; autistas com extrema sensibilidade sensorial devem ter um ambiente modulado para não ferir seus sentidos e acesso à terapias de integração sensorial desde a infância. Autistas com condições coexistentes precisam de apoio médico e o cuidado de toda uma coletividade.

Cada autista, assim como cada neurotípico, tem necessidades diferentes um do outro, e tentar encaixá-los em subgrupos por uma categorização psicofóbica (alto funcionamento, baixo funcionamento; leve, moderado, severo) só vai dificultar a sua integração social e destruir sua autoestima. O foco deveria ser no indivíduo, não em definições estabelecidas apenas para que governos possam decidir como aplicar recursos em políticas públicas de atenção à saúde.

Diferente do imaginário popular, autismo não é adjetivo e não desqualifica ninguém, como também não pressupõe genialidade alguma. Ser autista vai muito além de utilizar ou não a comunicação falada, ter um interesse especial em luzes, artes, animais ou em mangás, utilizar movimentos repetidos e autorregulatórios para se acalmar ou para demonstrar alegria, ser literal ou ter dificuldade em se relacionar com neurotípicos por estes não conseguirem compreender aqueles. E ser autista também pode ser isso tudo, junto e misturado.

Aprendi há alguns anos atrás, com a Rita Louzeiro, uma autista adulta e integrante da ABRAÇA, que autistar é verbo e, desde então, virou minha hashtag predileta. Adjetivos caracterizam pessoas e podem qualificar ou desqualificá-las. Verbo é ação, estado, fenômeno, ocorrência, desejo.

Autistar é ter prazer em se dedicar aos seus interesses especiais; é fazer uso de stims em momentos de grande ansiedade ou excitação; é lembrar de algo relacionado ao seu interesse especial que aprendeu 10 anos atrás e não conseguir lembrar do nome da pessoa que acabou de conhecer; é rir sem motivo aparente e chorar rios de lágrimas (sem conseguir entender direito como um rio pode virar lágrimas, que coisa estranha!)…

Nesse mês de junho, eu e meu filhote estaremos por aí, nas festas juninas que ele tanto ama só por conta das fogueiras (parte do seu hiperfoco), autistando com prazer e muito orgulho, sem nos preocuparmos se a maioria dos quitutes juninos não nos apetece.

Desfaça-se do seu apego à neurotipicidade, que teima em definir valor para seres humanos com base em critérios absurdos e preconceituosos, e venha autistar também! 😉

AVISO: Este artigo representa a opinião pessoal do autor/a e é de sua única e exclusiva responsabilidade. Os posicionamentos da ABRAÇA são tomados coletivamente e postados na categoria ‘MANIFESTOS’. 

 

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