Autistas: destruindo o estigma da incapacidade de viver em sociedade | Opinião | Maristela Lugon

Maristela Lugon é mestre em Direitos e Garantias Fundamentais pela FDV – Faculdade de Direito da Vitória; membro do BIOGEPE – Grupo de Estudos, Pesquisa e Extensão em Políticas Públicas, Direito à saúde e Bioética; membro da ABRAÇA – Associação Brasileira para Ação de Direitos das Pessoas com Autismo; membro da Comissão de Direitos da Pessoa com Deficiência do Conselho Federal da OAB; presidente da Comissão Especial de Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB/ES; membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB/ES.

O velho estigma do autista como pessoa que não é capaz de viver em sociedade está sendo, aos poucos, destruído. A antiga figura do autista como ser isolado do mundo, incapaz de perceber os acontecimentos a seu redor vai perdendo força, dando lugar à pessoa com sensibilidade e percepções diferenciadas do considerado padrão de normalidade. Mas afinal, o que é um estigma?

O estigma é uma marca socialmente imposta a determinadas pessoas por algum motivo. Seja de ordem racial, religiosa, física, devido a alguma doença ou anomalia genética ou condição social, geralmente, o estigma está associado a uma característica negativa, que acaba por afastar do convívio social as pessoas ou grupo estereotipados pela sociedade. Semelhante a uma cicatriz, o estigma fica de forma indelével e permanece por longos anos na vida de suas vítimas.

Criado na Grécia, o termo estigma se referia a sinais que se imprimiam nos corpos de determinadas pessoas com a finalidade de evidenciar algo de ruim em relação ao seu status moral. Tais marcas eram feitas com fogo ou cortes pelo corpo e avisavam que aquele indivíduo era um escravo, um criminoso ou um traidor. Para aquela sociedade, uma pessoa estigmatizada, deveria ser evitada, especialmente em lugares públicos. (GOFFMAN, 2004, p.05)

A sociedade desde então naturalizou a exclusão social de pessoas estigmatizadas. Aos que não se enquadravam no padrão pactuado, eram destinados os lugares à margem da sociedade, da exclusão social. A eles eram destinados os piores trabalhos, vestimentas, moradias e alimentos.

A sociedade segue estigmatizando e excluindo os despadronizados socialmente e, assim também age em relação às pessoas com autismo. Acostumadas com o velho conceito de autismo, as pessoas ainda acreditam na incapacidade do autista de se relacionar ou viver incluído na sociedade. E o pior, muitos não vislumbram a possibilidade do autista em colaborar para uma sociedade melhor, mais participativa.

Derrubar essa barreira deve ser uma preocupação constante dos gestores públicos, professores, família e sociedade. As associações para reconhecimento de direitos dos autistas e das pessoas com deficiência têm desenvolvido um importante papel social, lutando para a sua inclusão na sociedade.

A par dessa luta, cabe a cada um de nós repensar o papel dos autistas na sociedade, por meio de um novo olhar sobre esse grupo, que agora passa a querer integrar e buscar seu lugar social. Suas capacidades e necessidade são cada vez mais reconhecidas e compreendidas com forma da diversidade humana. Respeitá-las passou a ser um dever de todos, na concretização de um mundo onde a diversidade humana é o bem maior a ser protegido.

AVISO: Este artigo representa a opinião pessoal do autor/a e é de sua única e exclusiva responsabilidade. Os posicionamentos da ABRAÇA são tomados coletivamente e postados na categoria ‘MANIFESTOS’. 

 

Referências:
BUSSINGER, Elda Coelho e ARANTES, Maristela Lugon. O Estigma da Loucura como fator usurpador da dignidade humana: uma análise na perspectiva do direito à saúde. In ASENSI, Felipe et al. (org) Saúde e Direitos Humanos. Rio de Janeiro: Multifoco, 2016.

GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC,1988.

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