“CAPS não é lugar para autista” e o jogo dos 7 (ou mais) erros | Opinião | Ricardo Lugon

Ricardo Lugon sorrindo

Ricardo Lugon é psiquiatra da infância e adolescência no CAPSI de novo Hamburgo e professor da faculdade IENH. Mestre em educação pela UFRGS e membro da ABRAÇA.

  Inicialmente preciso situar o lugar de onde falo: sou médico psiquiatra da infância e adolescência, trabalhador de um Capsi no Rio Grande do Sul, professor universitário, militante do movimento da Reforma Psiquiátrica, filiado à Abraça, não sou autista nem tenho familiar autista. Também não tenho interesses financeiros no tema (não tenho empresa que vende cursos, não tenho consultório particular, não vendo produtos ligados à questão do autismo). Acompanho o debate das questões ligadas ao autismo há alguns anos e optei pela filiação à Abraça como reconhecimento de uma leitura sobre o autismo a partir da Convenção Internacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência.

Isto posto, queria apresentar alguns argumentos como forma de enfrentamento a um posicionamento difundido em algumas frentes de militância no campo do autismo que afirmam que os CAPS (e em particular os Capsis) não são lugares para autistas.

Inicio a problematização do tema pelo lado oposto, ou seja, de respostas que costumariam vir de alguns Capsis: a de que o autismo estaria incluído dentro dos diagnósticos previstos nas portarias ministeriais e que estes serviços estariam citados no documento “Linhas de Cuidado” (publicado pelo Ministério da Saúde em 2013) como estratégicos na articulação destes cuidados. Eu compreendo, aliás, eu vivencio diariamente as pressões exercidas pelas contínuas frentes de demandas dirigidas aos profissionais que trabalham num Capsi: “remédios” para os descabentes dos bancos escolares, psicologias e antidepressivos para adolescentes que se cortam, avaliação para internações de adolescentes transgressores e usuários de substâncias psicoativas (dentre tantas outras) e reconheço que uma maneira de se proteger de demandas incessantes é argumentar a partir das normativas ministeriais, o que entretanto pode perigosamente cristalizar, a partir da resposta negativa, que o diagnóstico classificatório é o definidor da entrada no Capsi. E o autismo estaria ali, dentro dos diagnósticos reconhecidos como “previstos”. A velha discussão “é ou não é caso para Capsi” ecoa de maneira muito incômoda. A maneira como os serviços de um determinado território compreendem “gravidade” precisa produzir não fluxos de encaminhamentos mas permitir a criação de maneiras ousadas de lidar com estas gravidades. Dito de outra maneira, há várias situações “gravíssimas” que dificilmente vão chegar ao conhecimento das equipes, aquelas situações onde crianças e adolescentes estão confinados a espaços minúsculos, excluídos de todos os espaços possíveis da sociedade. Não adianta “encaminhar” para o Capsi pois as questões de logística de deslocamento serão uma dentre tantas questões a serem enfrentadas. E dentre estas crianças e adolescentes podem estar crianças e adolescentes autistas. O perigo aqui é se insistirmos num automatismo autismoàCapsi, as pessoas autistas em condições mais precárias de vida (e que muitas vezes não tem relação com o autismo em si mas com uma série de outras exclusões e vulnerabilidades econômicas e sociais) continuarão desassistidas.

Queria citar aqui meu professor Fernando Ramos, no capítulo de introdução do livro “Capsi e a gestão das redes”, quando fala que “foi necessário um tempo de maturação para que se percebesse que os Capsi (…) deveriam assumir uma funçao propositiva e criativa (…) [e] que o conceito de rede subvertia completamente qualquer pretensão a um centro”; ou seja, os Capsis, tomados dentro das redes de atenção psicossocial, quando tentam se sustentar como “centros”, como “locais com especialistas para onde encaminhar” colocam a perder a riqueza do conceito de redes de atenção que são tecidas a partir dos encontros entre sujeitos, aqueles que demandam cuidados e aqueles que ofertam cuidados em saúde. E estes encontros precisam acontecer na polis, não na acrópole.

Na outra ponta do debate, as famílias que insistem em negar o Capsi enquanto lugar possível para seus filhos, irmãos e netos autistas, cometem uma série de equívocos que merecem nossa atenção.

Primeiro, os Capsis – e as redes que eles precisam compor e articular – cuidam de pessoas e não de diagnósticos. Eles cuidam de pessoas que estão sofrendo, que enfrentam “vicissitudes psíquicas que impedem ou dificultam o desenrolar de suas vidas” (agradeço à Cristina Ventura pela oferta de expressão tão importante e precisa). E pessoas autistas podem – PODEM – ter que se haver com esses impasses. Nem todas. Nem para sempre. Ou seja, não tomamos aqui o autismo como doença a ser extirpada ou prevenida (lembrando das tantas “ofertas” de intervenção precoce como “prevenção” do autismo) mas como modo particular de habitar o mundo, com suas especificidades e os desafios que daí decorrem, e das barreiras atitudinais e de comunicação que muitas pessoas autistas enfrentam. E muitas destas barreiras fazem estas pessoas sofrer. E os Capsis precisam oferecer atenção e cuidado a estes – e muitos outros – sofrimentos.

Como falei que os Capsi cuidam de pessoas e não de diagnósticos, chega a ser doloroso pra mim a afirmação de alguns familiares que não querem que seus filhos sejam atendidos em locais onde também são atendidos “dependentes químicos” (quando não dizem “drogados”) “hiperativos”, “suicidas” ou termos psicofóbicos ou capacitistas desse nível. São crianças e adolescentes. Com suas vicissitudes. Admito que não é fácil para a maioria dos serviços articular demandas tão diferentes. Mas a nossa persistência em cuidar de pessoas, apesar dos impasses que enfrentamos (dificuldade na fixação de profissionais, intempéries dos processos de governo, crises nas equipes por sobrecarga) deve prevalecer.

Por fim, tenho escutado o argumento de que os Capsis trabalham com a orientação psicanalítica e que esta não seria “adequada” para o autismo. Precisaríamos de um outro texto pra debater esta tal de “adequação”, quem sabe num outro momento. Minha discordância é com a primeira afirmação, de que os Capsis (todos, suponho) são psicanalíticos. Talvez eu fosse leviano se afirmasse que em nenhum deles há um profissional sequer com formação psicanalítica. Porém (ah, porém) vamos encontrar estes tais psicanalistas em muitos outros lugares. Pessoalmente já estive com eles em APAEs, em Hospitais Universitários, em Clínicas-escola de grandes universidades, em CERs e em tantos outros lugares que oferecem “tratamento para autismo”. Então se você é um militante que não gosta ou não concorda com a Psicanálise, romper com os Capsis pode não ser lá uma ideia muito boa. Nos Capsis, junto destes psicanalistas há muitos profissionais com abordagens e leituras diferentes – e por vezes divergentes – da Psicanálise. Recomendo como fonte de informação o artigo “Atenção psicossocial a crianças e adolescentes com autismo nos CAPSi da região metropolitana do Rio de Janeiro” (http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v26n1/1984-0470-sausoc-26-01-00196.pdf) que dá um panorama muito interessante dos tipos de cuidado oferecidos por estes serviços. E aviso, o artigo não fala de psicanálise.

Eu seria, ainda, leviano, se afirmasse que as experiências que inspiraram os Capsis não tiveram influência psicanalítica. Se a gente considerar que o NAICAP (que funcionou junto ao Instituto Philippe Pinel até o começo desta década, quando se tornou um Capsi), o CERSAMI-Betim e a Clinica Enfance (SP) podem ser tomadas como pioneiros no cuidado com a questão do autismo, não haveria como negar que a Psicanálise se faz presente sua genealogia. Muitos livros foram publicados, muita coisa foi escrita em “psicanalês ortodoxo” a partir destas experiências. Entretanto, com a expansão numérica de Capsis instalados no Brasil nas duas últimas décadas e a grande influxo de profissionais via concurso público (cujas provas de seleção costumam ser bastante inespecíficas em relação a abordagens teóricas), o cenário das “linhas teóricas” tornou-se bastante heterogêneo de modo que nos é impossível afirmar que exista um único tipo de abordagem nos Capsis Brasil afora.

Eu posso compreender que algumas famílias, quando atendidas nos Capsis, tiveram expectativas frustradas. Trouxeram seus filhos, netos, enteados em situações de vida bastante graves e não se sentiram acolhidos. E eu posso compreender e fazer um exercício de autocrítica de que há práticas de alguma maneira arcaicas vigentes em muitos Capsis. Muito do que se oferta em termos de atenção aos familiares ainda se remete às dinâmicas de “trabalhar a família”, como que buscando em seu seio as origens do sofrimento de seus entes. Os discursos culpabilizantes (psicanalíticos ou não) empesteiam o ar nestas cenas. Tomar as famílias como protagonistas dos cuidados, apostando na potência e nas parcerias, ainda tem sido algo raro nos Capsis. Não é à toa que os movimentos das militâncias se organizaram para além de seus portões. Mas aqui o meu alerta: nos tempos em que vivemos, de grandes ameaças ao Sistema Único de Saúde (queda na cobertura vacinal, aumento na mortalidade infantil, crescimento dos planos de saúde populares etc etc etc), é preocupante demonizar um tipo de serviço e dar margem aos impulsos privatizantes de muitos gestores. As experiências recentíssimas de privatização ou de parcerias público-privadas na saúde tem produzido indicadores lamentáveis. É importante tecer e sustentar críticas ao serviço não para destruir seus pilares, mas para que possamos participar de sua reinvenção.

Por fim, e pra simplificar. Capsis são lugares para pessoas, que estão sofrendo, independente do diagnóstico que lhes foi atribuído. Lugar de pessoas autistas é onde eles quiserem, inclusive nos Capsis.

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