Diagnóstico não é rótulo… De novo! | Opinião | Andressa Batista

Andressa sorrindo em frente a um fundo vermelho

Andressa Batista é autista, cega, membro do ABRAÇA e administradora da página “Eu, cega e autista” no Facebook.

Começamos há pouco menos de um mês a nos organizar para escrever textos para esta página e pelo menos que vi o assunto diagnóstico não é rótulo foi lembrado nesse espaço  aqui por duas vezes.

Queria dizer que não é à-toa.

Queria dizer também que mesmo achando que eu posso desagradar por estar sendo repetitiva, eu preciso falar do assunto a partir da minha vivência, que não é só como pessoa autista. Mas também  como pessoa com uma  deficiência visual total e aparente.

Quando suspeitei estar dentro do espectro autismo há alguns anos procurei alguém da minha confiança para dividir o assunto. Para a minha grande surpresa, ela mencionou a palavra rótulo, e me fez conhecer uma forma de pensamento que algumas pessoas tinham e que eu desconhecia  até então.

Trata-se da crença de que para evitar o preconceito e a discriminação, há certas características nossas que devemos esconder.

Para um grupo dentro desse grupo com pensamentos ainda mais radicais,   é importante que certas características sejam escondidas  até mesmo de nós próprios, porque segundo eles, assim estaremos evitando de inventar desculpas para não encarar o mundo como  ele é.

Hoje, dentro dos grupos para autistas  e sobre autismo vejo o quanto crenças assim são frequentes e quantos prejuízos  trazem.

Percebo que há muitos pontos dessa questão a serem abordados , incluindo a saúde mental de pessoas que mesmo sofrendo preferem fingir que certas coisas não estão ali.

Mas por agora, focando naquilo que eu já tenho propriedade pra falar, tenho algumas  reflexões  a fazer.

Eu já me convenci, faz muito, muito tempo, que meu autismo, mesmo quando eu não fazia ideia de que era assim que se chamava minha diferença, é parte de quem eu sou.

Mesmo sabendo que essa diferença me trazia as dificuldades de não crescer no tempo adequado, eu também sabia que era ela que trazia o batimento gostoso no coração quando eu experimentava aprender algo que eu queria.

Eu sempre soube que nem uma outra característica minha trazia mais dificuldades que essa, mas meu sonho, tão pouco compreendido é que eu tenha ao meu lado sempre pessoas que riem comigo do jeito que eu rio, que me pergunte sobre as coisas que eu gosto, que me abracem literal e figurativamente do jeito que eu prefiro.

Meu jeito  diferente de se relacionar com o  mundo também me rendeu algumas formas pelas quais fui chamada por diversas pessoas ao longo da vida. Louca, mimada,  chata, sentimental e preguiçosa, por exemplo. Palavras que hoje não duvido  se tratarem de rótulos. De rótulos que doeram. Alguns para sempre.

Nesse sentido, eu não vejo porque eu tenho que aceitar bem o rótulo de louca mas não o de autista.

Não vejo também  porque eu posso ter que passar por menos autista mas não por menos cega.

Acredito que dentre as pessoas que enxergam diagnóstico como rótulo existam aquelas que realmente tem boa intenção e que precisavam de mais essa reflexão para entenderem a importância de repensar a partir daqui.

Então eu peço.

Repense, repense e repense.

Não  há forma mais eficiente de ajudar na inclusão de alguém do que aceitando essa pessoa exatamente como ela é.

AVISO: Este artigo representa a opinião pessoal do autor/a e é de sua única e exclusiva responsabilidade. Os posicionamentos da ABRAÇA são tomados coletivamente e postados na categoria ‘MANIFESTOS’.

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