Greve dos caminhoneiros, deficiência e a falácia de uma vida independente | Opinião | Rita Louzeiro

Autora do texto: Rita Louzeiro é autista, ativista pela neurodiversidade e membro da ABRAÇA.

Maio de 2018, uma greve nacional de caminhoneiros paralisa o Brasil. Em poucos dias, começa uma crise de desabastecimento. Gás de cozinha, produtos começam a faltar nas feiras e supermercados. Seguindo a lei da oferta e da procura, o mercado eleva os preços dos produtos a valores exorbitantes. Terreno fértil para oportunistas e a gasolina, por exemplo, chega ao cúmulo de custar R$10,00 o litro em algumas cidades. A população sente a incerteza econômica em sua realidade diária. Escolas cancelam suas aulas, órgãos e empresas suspendem ou reduzem seu horário de atendimento. A coleta de lixo fica comprometida, hospitais sem suprimentos médicos, o risco de um colapso na saúde da população se avizinha. Os noticiários passam dias inteiros falando sobre isso. Ministros do governo dão entrevistas coletivas, as Forças Armadas são acionadas, o judiciário atua e a greve, ainda assim, perdura por mais de dez dias. Quando chegou ao fim, o alívio foi geral, apesar do caos não totalmente superado.

A situação real narrada acima deixa claro que a sociedade se organiza de tal forma que todos dependem de todos. A maioria das pessoas sai de suas casas diariamente e dedica muitas horas de seu dia ao trabalho. O fruto desse trabalho é o atendimento das demandas das pessoas. Todas as atividades que uma pessoa realiza durante o dia, e todas as demandas que ela tem atendidas resultam dessa organização social. Desde o pãozinho no café da manhã até o acender das lâmpadas, há o trabalho humano atuando para que as pessoas tenham o que precisam. Porém, pessoas com deficiência são ignoradas nessa organização. Por muito tempo, se considerou que a deficiência estava no corpo ou na mente da pessoa, hoje já se entende que a deficiência está no ambiente e ocorre por meio das diversas barreiras em seus trajetos diários e ao longo da vida.

No entanto, ainda há no imaginário social a ideia de vida independente atrelada ao esforço da pessoa com deficiência. Dessa forma, considera-se que uma pessoa com deficiência é bem sucedida quanto mais independente ela consegue ser. Isso mascara o fato de que essa independência é construída socialmente por meio de uma árdua organização social sem a qual ela não seria possível. Pessoas com deficiência vivem em uma eterna greve dos caminhoneiros e delas é exigida independência para serem consideradas bem sucedidas. Sem disponibilização de rampas, calçadas adequadas, ônibus com sistema de elevação e acentos adequados, carros adaptados, elevadores e outras ferramentas e servidos, como uma pessoa cadeirante irá se locomover pela cidade? Se eventos culturais não forem disponibilizados em Libras, por exemplo, como surdos terão acesso a esses eventos? É por isso que a legislação atual determina a acessibilidade desde a concepção dos projetos e serviços por meio do desenho universal. Essas mudanças tem possibilitado que pessoas com deficiência vivam suas vidas de maneira mais plena, mas ainda é muito pouco e essas pessoas ainda precisam se esforçar e se desgastar muito para terem o mínimo.

Um grupo mais específico dentro das pessoas com deficiência que sofre essa invisibilização é o de pessoas que demandam cuidados ininterruptos na vida adulta. É o que ocorre com muitos autistas clássicos que chegam à fase adulta demandando cuidados diários e ininterruptos. É possível considerar que esse grupo e seus familiares vivem em uma greve de caminhoneiros que nunca tem fim. Com o agravante de que é toda uma coletividade em greve permanente e não apenas uma categoria profissional. Ir ao dentista, por exemplo, algo simples para a maioria das pessoas, é algo quase impossível para muitos desses autistas. Não há espaços para eles, não há serviços ou ferramentas que atendam suas demandas. Não há uma organização social que lhes auxilie e seus cuidados ficam a cargo de alguma pessoa da família que geralmente é a mãe ou outra mulher, raramente o pai ou outro homem. Essa pessoa que supre essas lacunas é também invisibilizada, pois se a sociedade não enxerga esses adultos que demandam cuidados ininterruptos, ela faz o mesmo, por tabela, com seus cuidadores.

É importante ter isso em mente sempre que se fala em vida independente porque há quase sempre a ideia de que uma vida independente é fruto de mérito ou de esforço pessoal. Se você precisa que uma indústria fabrique coisas para você usar, que haja gasolina nos postos, que haja lojas onde comprar coisas que você não é capaz de fabricar, que existam espaços na sua cidade onde você possa trabalhar, estudar, encontrar os amigos, descansar, ficar de bobeira, ver uma exposição ou qualquer outra coisa que não dependa exclusivamente de você em absolutamente todas as etapas, a sua vida independente não é fruto do seu esforço pessoal. Ela é fruto da atuação de milhares de pessoas que trabalham para que ela seja possível. Portando, vida independente é uma falácia que reforça a ideia de que algumas pessoas são capazes e outras não, quando, na verdade, o que acontece é que algumas pessoas têm suas demandas atendidas e outras não.

AVISO: Este artigo representa a opinião pessoal do autor/a e é de sua única e exclusiva responsabilidade. Os posicionamentos da ABRAÇA são tomados coletivamente e postados na categoria ‘MANIFESTOS’.

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