Protagonismo autista | Opinião | Adriana Torres

Adriana Torres é formada em administração com ênfase em marketing e trabalhou cerca de vinte anos nas áreas comercial e de comunicação. É ativista pelos direitos humanos há mais de dez anos, mãe de um garoto autista e vem descobrindo, aos poucos, suas próprias características autistas. Integrante da ABRAÇA, é também membro do grupo Autismo em Evidências e administradora da página Comunicando Direito no facebook.

Quando comecei a atuar no terceiro setor e em movimentos sociais, há mais de dez anos, não foi difícil perceber o quanto é conflituoso cada espaço de debates, principalmente dentro dos grupos identitários. Existe muita treta dentro do movimento feminista (existem feminismos assim como autismos, no plural), do movimento pelos direitos animais (bota treta nisso, minha gente!), dos movimentos relacionados à sustentabilidade, isso para falar só dos quais participei mais ativamente.

Natural, visto que estamos falando de espaços plurais e democráticos, onde todas e todos devem ter, essencialmente, direito à voz e a participar da tomada de decisões. Em um país tradicionalmente autoritário, atuar em rede, de forma horizontal, é no mínimo estranho. Além disso, o conflito é benéfico, pois só crescemos realmente por meio da discordância, do debate, e não da homogeneidade de discursos e pensamentos.

Porém, o único movimento (que participo hoje) que é protagonizado majoritariamente por parentes da minoria interessada e nos quais esses mesmos parentes procuram, a todo instante, silenciar essa minoria, é o dos autistas.

Esse silenciamento é constante e ostensivo, eles realmente não tem pudor em agirem de forma contrária ao interesse dos ativistas autistas e, no confronto, usam como justificativa coisas absurdas como “você não é tão autista quanto meu filho”, “duvido que você tenha laudo de verdade”, “você não entende de autismo severo”, “você não pode falar pelo meu filho, ele nem sabe o que é orgulho (veja, a pessoa falando pelo filho!), etc.

No último dia 18 de junho, enquanto autistas de todo o mundo celebravam o dia criado POR ELES e PARA ELES, tive o desprazer de ver debates assim na minha página e também em posts alheios na internet.

É interessante notar que essa situação não é novidade para os movimentos de pessoas com deficiência em geral, pois a história do movimento político desses grupos foi marcada pela necessidade das pessoas com deficiência de se contraporem às associações que prestavam serviços a eles, incluindo movimentos de familiares, desencadeando assim o deslocamento das políticas, até então centradas na assistência social, para o campo dos direitos humanos.

O desejo do protagonismo e do empoderamento foi a base para a mobilização nacional e ganhou força com a promulgação, pelas Organizações das Nações Unidas (ONU) do Ano Internacional das Pessoas Deficientes (AIPD), em 1981, sob o tema “Participação Plena e Igualdade”. Colocando as pessoas com deficiência em evidência, o AIPD e o processo de redemocratização brasileira foram fundamentais para a realização dos Encontros Nacionais (entre 1981 e 1983) e a fundação da Federação Nacional de Entidades de Pessoas Deficientes, que, posteriormente, foi substituída por federações nacionais de acordo com cada deficiência.

Os conflitos também surgiram e existem até hoje entre os diversos grupos que compõem o amplo rol de pessoas com deficiência, mas o principal motivo que os uniu foi a busca pela autonomia e o protagonismo de suas lutas. Nas décadas seguintes ocorreram diversas reuniões, simpósios, conferências, a criação de marcos legais até a ratificação, no Brasil, da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, primeiro tratado internacional de Direitos Humanos a conquistar o status de emenda constitucional.

É inegável que, legalmente, hoje, o Brasil se encontra em outro patamar no que tange aos direitos das pessoas com deficiência, incluindo aqui as pessoas autistas. Temos uma das legislações mais avançadas no mundo e, do modelo médico, que centrava seus esforços na cura e na adaptação da pessoa com deficiência, caminhamos para o modelo social de deficiência, este definido pelas próprias pessoas com deficiência, no qual a deficiência existe na interação do indivíduo com o ambiente; do modelo de integração, semelhante ao modelo médico, que definia quem poderia ou não ser capacitado para participar da sociedade, seguimos (digo, juridicamente falando) para o modelo de inclusão, onde o foco das discussões é a retirada das barreiras – físicas e atitudinais – que impeçam a participação plena das pessoas com deficiência em todos os espaços sociais – da escola ao mercado de trabalho.

Existe uma diferença gigantesca entre ter uma sociedade que percebe determinado grupo como necessitado de ações caritativas para a sobrevivência, e outra que reconhece esse grupo dotado dos mesmos direitos fundamentais dos demais. A pessoa com deficiência não é um problema, a deficiência não é um problema. O problema é a nossa sociedade, é o nosso ambiente capacitista e psicofóbico que impõe barreiras de acesso a essas pessoas.

Agora é preciso colocar essa legislação e esse modelo em prática, e isso só será possível quando todas e todos, sem exceção, respeitarem os diversos membros desse grupo que, preciso informar, não são os parentes das pessoas com deficiência.

A diversidade existente dentro do autismo não dá direito a qualquer neurotípico (e nem mesmo a um autista) de colocar em dúvida a condição alheia (com ou sem laudo, pois sabemos o quanto é difícil conseguir hoje, no Brasil, um diagnóstico, principalmente de adolescentes e adultos) e/ou de silenciar os que estão lutando pelo efetivação do modelo social de deficiência. Necessitar de mais suporte no dia a dia não é um título de “autismo puro sangue”, nem autistas autônomos são autistas “fakes”. A mudança da CID é bem clara quanto a isso, inclusive.

Autistas brasileiros e associações de defesa dos direitos dos autistas precisam se concentrar cada vez mais na incidência em políticas públicas que ofereçam instrumentos de apoio para os diversos autismos e, principalmente, ferramentas de comunicação alternativa, a fim de garantir a voz dos autistas não falantes para, com isso, mostrar a todas e todos, como a Amy  Sequenzia, o Ido Kedar, a Emma Zurcher-Long, entre outros, vem fazendo ao redor do mundo, que o não uso da linguagem falada não pressupõe incompetência intelectual, emocional ou cognitiva e que eles podem sim, falar por si e ter orgulho de quem são!

O Estado e a mídia precisam valer o lema “Nada sobre nós sem nós” e adotarem medidas para que tudo que se relacione com o autismo seja protagonizado pelos próprios autistas. Somente assim conseguiremos vencer as barreiras atitudinais existentes dentro do seio das próprias famílias dos autistas e que tanto prejudicam a implantação do modelo social de deficiência.

AVISO: Este artigo representa a opinião pessoal do autor/a e é de sua única e exclusiva responsabilidade. Os posicionamentos da ABRAÇA são tomados coletivamente e postados na categoria ‘MANIFESTOS’. 

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