SEMEANDO E COLHENDO

Manuel Vazquez Gil

Manuel Vazquez Gil foi facilitador da 2ª Oficina

Manuel Vazquez Gil
Psicólogo, pai do Luan e membro da ABRAÇA em São Paulo 

A oficina que a Abraça promoveu em Belo Horizonte nos dias 26 e 27 últimos foi um evento singelo e raro: organizado e apresentado apenas por meninos – mesmo que já tenham passado da idade da infância, ainda são meninos – tinha a missão clara de conscientizar e capacitar organizações para o árduo trabalho em busca dos direitos das pessoas com autismo sob o prisma dos direitos humanos.

O modelo de direitos humanos que a Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência trata de conceder a todas as pessoas, sem exceção, o direito de cidadania plena, de protagonismo e de autonomia. Como dizemos na Abraça, o autista tem voz.

Enquanto Alexandre, Maurício e eu nos revezávamos nos conteúdos (e até os convidados, Luíz e Dr. Belisário eram meninos), Matheus, Maxwell, Mateus e Luan nos ofereciam, na prática a ao vivo, um exemplo do modelo que explicávamos: o salão era deles, crianças autistas que demonstravam seus talentos para as pessoas bonitas que nos brindaram com sua presença.

Mateus leu belos discursos e ainda cantou algumas músicas; Max cuidou do Matheus quando o pai ausentava; Matheus navegou entre os presentes, “sequestrando” as garrafinhas de água para fabricar seu próprio mar; Luan pouco ficou no evento, talvez porque já participou de vários, mas ficou com a chave da porta do quarto e se tornou dono do seu caminhar. As pessoas que chegavam e queriam conhecê-lo subiam, batiam à porta, ele os recebia lá mesmo.

Nenhum deles foi em momento algum contido ou impedido de usar o livre arbítrio de, algumas vezes, até ficar diante da tela: usávamos esse momento para respirar melhor, descansar alguns minutos, acreditávamos que era proposital para nos avisar que estávamos indo depressa demais e que a vida deve ser usufruída lentamente, com prazer.

Enquanto a oficina seguia, era possível ver os olhos das pessoas ganhando brilho. Num canto, Mateus enchia a boca de água e fazia chafariz, lavando os meus sapatos; no outro, Luan resolvia frações para o pai do Mateus; no outro, Mateus usava o microfone para me lembrar que “combinado é combinado, Sr. Manuel”; aquela declarou que havia planejado ir apenas para a abertura, mas ficou até o último minuto da última hora, bem depois do encerramento; esta pediu desculpas pois precisava sair às 15 para voltar à sua cidade, mas saiu às 16:30, depois de vários telefonemas da mãe; uns testemunharam a transformação por que passaram naqueles dias; outra afirmou que saía dali outra pessoa.

Exemplos, saídos da fala das próprias pessoas, que encheram nossos corações de alegria: fomos deixar sementes e vimos a germinação antes de voltar pra casa.

O modelo dos direitos humanos é mais que uma filosofia para nós, da Abraça: é uma forma de viver, é o oxigênio que movimenta nossas ações, o alimento que nos mantém na luta diária. Faz parte de nós, é inseparável do nosso ser. O autista, na nossa visão e na nossa prática, é o protagonista da sua própria história, tem voz e o direito de ser ouvido.

Talvez as pessoas tenham, conscientemente, aproveitado o conteúdo da oficina, os relatos pessoais que levamos, os estudos de casos reais. Mas o que provocou essa mudança tão rápida foi a presença indelével dos cuidados do Max, da rebeldia gostosa do Matheus, da oratória impecável do Mateus, da autonomia ampla do Luan.

Saibam todos que não é coincidência fortuita: nós, os meninos que organizamos e apresentamos essa oficina somos, todos, discípulos desses meninos. Somos também tão meninos quanto eles. Por isso sabemos que eles são capazes: porque nos mantemos no mesmo tamanho deles. Assim, eles foram os protagonistas, nós apenas permitimos que se mostrassem, e aprendemos mais ainda.

Deu no que deu.

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